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Acima de tudo, cultura geral

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Robert Shiller: Será que a economia é uma ciência?

Planeta Cultural, 26.11.13

Mas nem toda a matemática na economia é, como Taleb sugere, charlatã. A economia tem um lado quantitativo importante, ao qual não se pode escapar. O desafio tem sido combinar estes conhecimentos matemáticos com o tipo de ajustamentos que são necessários fazer.

 

Sou um dos vencedores do prémio em ciências económicas em memória de Nobel, o que me colocou profundamente consciente das críticas relativas ao galardão por parte daqueles que defendem que a economia - ao contrário da química, física ou medicina, áreas que também recebem o Nobel - não é uma ciência. Será que estão certos?

 

Um dos problemas relacionados com a economia é o de que ela está necessariamente centrada na política, mais do que na descoberta de fundamentais. Ninguém liga demasiado aos dados económicos excepto enquanto orientadores de política: os fenómenos económicos não têm o mesmo fascínio intrínseco que têm as ressonâncias internas de um átomo ou o funcionamento das vesículas e de outros organismos de uma célula viva. Nós julgamos a economia pelo que ela pode "produzir". Como tal, a economia é mais como a engenharia do que como a física, mais prática do que espiritual.

 

Não há nenhum prémio Nobel para a engenharia, embora devesse existir. Na verdade, o prémio de química deste ano parece-se um pouco a um prémio de engenharia, porque foi entregue a três investidores - Martin Karplus, Michael Levitt e Arieh Warshel - "pelo desenvolvimento de modelos multiescala de sistemas químicos complexos", que está por detrás dos programas informáticos que possibilitam o funcionamento da ressonância magnética. Mas a Fundação Nobel é obrigada a olhar de uma forma mais profunda para estes materiais práticos e aplicados quando se debruça sobre o prémio de economia.

 

O problema é que, uma vez centrando-se na política económica, entra em jogo muita coisa que não é ciência. Envolve-se a política - e a atitude política é profundamente recompensada pela atenção pública. O prémio Nobel foi estabelecido para galardoar aqueles que não se envolvem em truques para conquistar a atenção e aqueles que, na busca sincera pela verdade, poderiam ser menosprezados.

 

Porque é que se chama prémio em "ciências económicas" em vez de ser apenas em "economia"? Os outros prémios não são em "ciências químicas" ou em "ciências físicas".

Os campos de actuação que usam a "ciência" nos seus títulos tendem a ser aqueles que têm muitas pessoas emocionalmente envolvidas e nos quais os excêntricos conseguem ter algum poder na opinião pública. Estes campos têm "ciência" nos seus nomes para distingui-los dos parentes com uma má reputação.

 

O termo "ciência política" tornou-se popular pela primeira vez no final do século XVIII, para distingui-la de todos os sectores partidários cujo propósito fosse ganhar votos e influenciar, mais do que procurar a verdade. A "ciência astronómica" foi um conceito comum no final do século XIX, para distingui-la da astrologia e do estudo de mitos antigos sobre as constelações. A "ciência hipnótica" também foi utilizada no século XIX para diferenciar o estudo científico do hipnotismo e a bruxaria ou transcendentalismo religioso.

 

Na altura, havia necessidade de recorrer a estes termos porque os congéneres excêntricos tinham uma influência muito maior no discurso geral. Os cientistas tiveram de anunciar-se como cientistas.

 

Na verdade, mesmo o termo "ciência química" desfrutou de alguma popularidade no século XIX - uma época em que este campo pretendia separar-se da alquimia e da promoção de remédios charlatães. Mas a necessidade de utilizar um termo que distinguisse a verdadeira ciência da prática de impostores já estava a desaparecer na altura em que os prémios Nobel foram lançados, em 1901.

 

Do mesmo modo, os termos "ciência astronómica" e "ciência hipnótica" foram morrendo à medida que o século XX avançou, talvez porque a crença no oculto enfraqueceu numa sociedade respeitável. Sim, os horóscopos ainda persistem nos jornais populares, mas destinam-se apenas a pessoas alienadas da ciência ou para entretenimento; a ideia de que as estrelas determinam o nosso futuro perdeu a credibilidade intelectual. Daí que já não seja necessário o conceito de "ciência astronómica".

 

Os críticos das "ciências económicas" referem-se, por vezes, ao desenvolvimento de uma "pseudociência" da economia, defendendo que utiliza os ornamentos da ciência, como matemática, mas apenas para o espectáculo. Por exemplo, no seu livro de 2004, "Fooled by Randomness", Nassim Nicholas Taleb escreveu as seguintes palavras sobre as ciências económicas: "Pode-se dissimular o charlatanismo sob um conjunto de equações e ninguém vai descobri-lo dado que não há tal coisa como experiência controlada".

 

Mas a física também não está afastada das críticas. No livro de 2004, "The Trouble with Physics: The Rise of String Theory, The Fall of a Science, and What Comes Next", Lee Smolin censurou a profissão de físico por deixar-se seduzir por teorias bonitas e elegantes (nomeadamente a teoria das cordas), mais do que por teorias que pudessem ser testadas pela experimentação. Da mesma forma, no livro de 2007, "Not Even Wrong: The Failure of String Theory and the Search for Unity in Physical Law", Peter Woit acusou os físicos de muitos dos pecados que são atribuídos aos economistas matemáticos.

 

A minha crença é a de que a economia é, de alguma forma, mais vulnerável do que as ciências físicas a modelos cuja validade nunca será clara, porque a necessidade de aproximação é muito mais forte do que nas ciências físicas, especialmente devido ao facto de os modelos descreverem pessoas e não ressonâncias magnéticas ou partículas fundamentais. As pessoas podem mudar as suas mentes e comportar-se de forma completamente diferente. Elas têm, até, neurónios e identificam problemas, fenómenos complexos que o campo da economia comportamental considera importante para compreender efeitos económicos.

 

Mas nem toda a matemática na economia é, como Taleb sugere, charlatã. A economia tem um lado quantitativo importante, ao qual não se pode escapar. O desafio tem sido combinar estes conhecimentos matemáticos com o tipo de ajustamentos que são necessários fazer para que os modelos encaixem no irredutivelmente elemento humano da economia. 

 

O avanço da economia comportamental não está fundamentalmente em conflito com a economia matemática, como muitos parecem pensar, embora possa muito bem estar em conflito com alguns dos modelos económicos matemáticos que estão actualmente na moda. E, enquanto a economia apresenta os seus próprios problemas metodológicos, os desafios mais básicos que os investigadores enfrentam não são diferentes daqueles que se verificam noutros campos. Com o desenvolvimento da economia, irá alargar-se o repertório de métodos e fontes de prova, a ciência vai tornar-se mais forte e os charlatães ficarão expostos.

 

 

 

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