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Jovem moçambicana contesta casamento arranjado por seita religiosa

Domingo, 04.12.11

Uma menor de 13 anos desencadeou um processo judicial em Manica, centro de Moçambique, para contestar um casamento arranjado pelo seu pai com um homem polígamo, ambos crentes da ceita Johan-marangue, que autoriza casamentos prematuros.

Meiga, gorro branco na cabeça e um sorriso envergonhado, aos nove anos foi obrigada a viver maritalmente com um homem polígamo, com três mulheres, em cumprimento "dos mandamentos bíblicos" da seita e para legitimar a filiação do pai à igreja.

"Obrigava-me várias vezes a fazer sexo, mas eu não sabia o que era isso, se era algo para comer, até que um dia me chamou para o quarto e o encontrei despido e fugi", disse à Lusa a menor, que denuncia ter sofrido agressões físicas por não fazer alguns trabalhos forçados, em beneficio das mulheres mais velhas do lar.

Este é o primeiro caso que chega à justiça em Manica, envolvendo crentes da igreja Johan-marangue, embora a prática de casamentos prematuros seja muito frequente entre os membros da igreja, famosa por recusar a medicina convencional.

O caso foi tornado público em Agosto, quando a menor foi espancada pelo pai, que a forçava a regressar à casa do noivo, depois de ter fugido por duas vezes, para se escapar às tentativas de violência sexual, protagonizado pelo "prometido".

Com escoriações na cara e sangrando do nariz, a menor socorreu-se junto a LEMUSICA (Levanta Mulher e Siga o seu Caminho), uma organização não governamental que apoia vítimas de violência sexual e doméstica, onde denunciou o caso.

"Depois de a recebermos, levámo-la ao hospital (em Vanduzi, distrito de Manica) para assistência médica e a acolhemos no nosso centro. O pai forçava-a a regressar à casa do marido para cumprir com a sua palavra e não ferir os mandamentos da igreja", disse à Agencia Lusa Cecília Ernesto, assistente social na área da rapariga na LEMUSICA.

Para arranjar o casamento, o pai recebeu do homem 100 meticais (2,7 euros). O valor foi depois devolvido à família para reintegrar a criança na sociedade e escola.

"É uma situação absurda. Durante as conferências de Páscoa (que a seita celebra em Setembro) da igreja ela era obrigada a preparar o banho do marido e das outras três mulheres além de servir o mata-bicho", conta Cecília Ernesto.

Geralmente, o pastor da igreja Johan-marangue, uns dos maiores polígamos, tem a obrigação de casar com a filha e ou esposa dos crentes, assim que sonhar com elas. Os membros não têm o mesmo direito.

"A igreja fomenta casamentos prematuros alegando serem princípios da religião. Por exemplo é obrigação do membro entregar a filha e ou esposa sempre que o pastor sonhe com ela. Esta crença não é benéfica", disse à Lusa Achia Mulima, coordenadora da LEMUSICA, que desenvolve campanhas de educação cívica sobre violência.

A ONG criou grupos de escuta e denúncia, constituídos por chefes de famílias e líderes comunitários, junto às comunidades e escolas, cuja missão é descobrir casos de abuso sexual de menores. Até Setembro foram realizados 179 aconselhamentos individuais e 13 casos levados à justiça (Procuradoria e Tribunal), com duas condenações.

"Agora o caso está no tribunal com o nosso devido acompanhamento e esperamos que a justiça seja feita, enquanto reintegramos a menor na sua comunidade, pois ela tem muita vontade de estudar", concluiu Mulima.

Em 2009, um outro caso, envolvendo uma menor da igreja Sendeluca JacknSen, com a mesma tradição, foi registado. Admite-se que vários outros casos estejam a acontecer, mas que confinados entre os membros fiéis à religião.

 

 

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Publicado por Planeta Cultural às 14:24


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